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Deixem-me gritar!!!
Deixem-me chorar!!!
Deixem-me libertar esta dor que me consome, esta dor do passado, esta saudade que me sufoca e me aperta o coração...
Deixem-me correr!!!
Deixem-me partir!!!
Deixem-me...
Deixem-me só...como sou...como estou...como sempre fui... E eu fico aqui...definhando...agonizando...deixem-me...eu ficarei bem...
Dêm liberdade aos meus sonhos e aos meus delirios...Deixem-me viver e esquecer os suplicios...
Deixem-me desabafar e libertar os fantasmas que trazia dentro de mim...que me envenenavam o espirito...e esqueçam depois o que disse...
Hoje olhei nos teus olhos...vi mágoa, vi tristeza, vi dor...vi uma mulher que não conheço...um ar pesado, velho, maltratado...cabelo que antes era escovado e esticado, brilhante e cuidado, hoje estava baço e desalinhado...tua boca de um rosa tão suave, com seus contornos provocadores, sempre com um sorriso maroto á espreita, hoje era pálida, seca como um fruto espremido, gretada e descaída num esgar de desilusão...tua pele tão formosa, tão doce, aveludada como um pêssego jovem, hoje é aspara, flácida, enrugada prematuramente pelas adversidades da vida...por fim os olhos...onde estão os teus? Aqueles castanhos cativantes, penetrantes que olhavam nos olhos dos outros e lhes descobriam a alma...esses eram os teus olhos...por vezes pintados, delineados a preto realçando a sua exótica forma amendoada que seduziam com a sua inocência e cativavam hipnotizando como o olhar de uma serpente...e o brilho...era divinal...iluminavam a mais escura das noites quando se acendiam num fulgor quente de chama...esses teus olhos onde estão? Onde anda o teu olhar mágico e misterioso de feiticeira encantada? Os que deixas-te no lugar são frios, escuros, parados no infinito com uma cortina de água que lhes dá um ar vítreo...ao redor o vermelho de muitas noites em branco e muitas lagrimas derramadas...não...já não choras...não te restam mais lagrimas...estás morta. Despedaçada por dentro...desfeita e abandonada até por ti mesma...largada a uma existência sem tempo nem esperança...sem vida nem alma...Às vezes acordas e com um ar louco, desvairado corres na rua na ilusão de ter ouvido ou visto algum vestígio de uma amor antigo há muito perdido no tempo e no espaço...percebes que os teus sentidos embriagados na tua própria loucura te enganam...ou será que brincam cruelmente com a dor que trazes no peito e te consome? Talvez ambas...e quando assim é voltas ao marasmo do teu sofrer, voltas à transe do teu definhar e entras de novo nesse teu mundo de fantasia desregrada em que os anos não passam e a vida não acaba... Hoje olhei-te e descobri uma estranha... Hoje chorei vi que choras-te também... Hoje olhei-te...e vi-te no espelho...como uma sombra sombria de um passado que me assombra...hoje vi semelhanças entre nós...e enviei-te para onde nunca devias ter saído...Descansa Em Paz...Enterrei-te.